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Tonho Matéria conta sua rica história.
Herik Mourão - Email: herik@lelynho.com.br

Cantor com 3 cd´s solo, exímio compositor, vocalista do Olodum, capoeirista, estudante de Publicidade, criador do projeto social Capoeira Mangangá, Produtor e um legitimo baiano, Tonho Matéria é figura importantíssima na música baiana.Com canções gravadas por todas as bandas importantes da Axé-music, ele tem parcerias com Durval Lelys, Bell Marques e muitos outros medalhões.

Tonho é uma pessoa muito amável e cativante. Não para de falar, contar e cantar. Super orgulhoso de “seus meninos”, os jovens que ele assiste no Projeto Capoeira Mangangá com aulas de inglês, dança, pré-vestibular e capoeira.

Aos 41 anos, bem conservados praticando capoeira, Tonho nos conta um pouco de sua rica história na música e como surgiram canções famosas “Durvalino, meu rei”, “Menina me dá seu amor” e “Dia dos namorados”.

Lelynho.com.br: Como você entrou na música?

Tonho: Não sei, faz tanto tempo. (Risos) Eu vivia cantando. Cantando e batucando. Eu aprendi percussão dentro do candomblé. Eu ia pro candomblé pra aprender a tocar percussão. O percussionista tem que saber tocar o candomblé, é dali que vem toda a essência do samba. Foi dali que o Neguinho do Samba criou o Samba-Reggae. Preste atenção que o Samba-Reggae é o Candomblé misturado com o Samba. Precisa estar ligado pra entender mesmo as frases.

Quando começaram os ensaios de bloco afro lá em Salvador, eu saia escondido, pois eu era garoto ainda, minha mãe não me deixava ir, ficava com medo. Naquela época já rolavam umas brigas de gangue e eu também ficava com medo. Ai quando chegou um bloco afro chamado Ébano, eu compus uma canção em cima de uma poesia de Castro Alves.
“Deus, ó Deus”,
(Onde estás que não responde.
Nesse mundo em que estrela se esconde)

Aí fiz uma canção chamada “Em busca de um novo deus”. Participei cantando e fiquei em segundo lugar. De lá pra cá, não parei mais. Isso em 84.
Participei desse bloco, participei de bloco de samba, de grupos de samba. Naquela época, artistas como Tatau (Ara ketu), Ninha e Xexéu (Timbalada), Pierre (Olodum), Reinaldo (Terrasamba), cada um participava de um grupo de samba-duro. Eu fazia parte de uns ou quatro ou cinco grupos.
E participei de blocos Afro, como o Ébano, Amantes do Reggae, Freketê, Olodum e Ara Ketu. Eu fui cantor do Ara ketu também, mas muita gente não sabe. Os dois primeiros discos do Ara Ketu sou eu quem canto.

Lelynho.com.br: Quando voltou pro Olodum, você não pensava em ter vendido um milhão de cópias, ter estourado?

Tonho: Não, eu sempre tive medo de ser o popstar, veja Daniela Mercury e Ivete Sangalo todo o ano têm que provar que está melhor e artista nenhum consegue superar-se toda vez. Um dia isso vai te cansar e é nessa hora que muitos artistas que não têm estrutura acham que ninguém mais gosta dele, ninguém mais vai ver o seu trabalho e ai acaba a auto-estima e o artista vai para as drogas.

É complicado isso pra cabeça do artista. Eu quero primeiro amadurecer, eu quero um dia vender um milhão de cópias, mas quero estar preparado, ter uma equipe bem preparada. Quem sabe os meus meninos do meu projeto de capoeira já estejam formados em Direito, Produção Cultural. Porque eu preparo os meus meninos na capoeira pra isso. Para eles serem uns cidadãos.

Eu vejo as coisas que eu conquistei com a música. Consegui imprimir a minha marca. Hoje, mesmo dentro do Olodum, as pessoas não me vêem só como do Olodum. Me vêem como Tonho Matéria que tem um trabalho além do Olodum. E se eu chego e me apresentam como Tonho Matéria do Olodum, digo não, Tonho Matéria.

Lelynho.com.br: O Samba reggae criado pro Neguinho do Samba dentro do Olodum foi o ritmo que revolucionou a música no Brasil nos últimos anos?

Tonho: Sem sombra de dúvida. Pq o ritmo do carnaval baiano era o frevo, que era pernambucano, a gente fazia a levada do “Trio Elétrico Dodô e Osmar”. Moraes Moreira foi o primeiro cantor de trio elétrico no Brasil, mas foi com os Blocos Afros que se criou uma identidade baiana na música de carnaval.

Lelynho.com.br: Qual o Samba Reggae mais Bonito?

Tonho: Posso falar uma música minha?

“Ginga e Expressão”.
(Ginga e expressão
Vem do coração
É um mar de amor
É um mar)

Essa música é tudo. Foi com ela que ganhei o prêmio Sharp, o prêmio Imprensa.

Ganhei como melhor música do ano e o melhor compositor do ano.
Ela veio de uma mulher na rua que me chamou pra transar. Ai corri pegar um papel na rua e escrevi:

“A mulher
Surpreende o seu mundo por ser exótica
Vendo imagem de puberdade
Pro teu sentir”

Lelynho.com.br: Desde “Alegria Geral” (Olodum ta reggae / Olodum ta rock / Olodum pirou de vez) o Olodum mudou muito, ficou mais comercial. Foram pelas dificuldades encontradas pelos Blocos Afro?

Você sabe que as grandes empresas, as multinacionais querem agregar a sua marca a determinado público que seja capaz de consumir o que elas estão oferecendo. Se eu tenho uma loja de grife, não vou patrocinar o Olodum, vou patrocinar o Chiclete com Banana ou Ivete Sangalo, pois esse público tem mais a ver com a minha loja. Só que essas grandes empresas não sabem que a grande massa consumidora é o povo. É o povão que ganha o salário curto dele. Uma pessoa só não compra em grande quantidade. Mas várias pessoas comprando, há uma grande demanda.
Há uma dificuldade muito grande dos blocos afros em conseguir patrocínio. O Ilê Ayiê até conseguiu alguns patrocínios. O Olodum tem uma parceria com a Petrobrás no projeto da Escola Criativa Olodum, mas ai é um projeto social.

Lelynho.com.br: Tonho, você tem uma relação muito forte com duas figuras muito conhecidas e queridas. Fale um pouco sobre elas.

Lelynho.com.br: Durval Lelys, band leader do AsA de Águia.

Tonho: Meu irmão, esse sem comentários.
Durval é uma pessoa hiper especial, meu parceiro em mais de trinta músicas. Gravou várias delas e uma delas que é um sucesso é “Dia dos namorados”, que foi gravada justamente no dia dos namorados e ela conta justamente uma transa.

É uma transa que a gente tá contando. (Cantarola a música).

A gente falou de sexo sem precisar apelar.

Fizemos no estúdio do Durval mais cinco canções naquele dia. E o engraçado que dessas não gravou nenhuma até hoje. Todo ano ele me diz que vai gravar uma que chama “Pela Beira”. E vai ser a segunda “dia dos namorados”, pode acreditar.

Lelynho.com.br: Bell Marques do Chiclete com Banana, que você homenageou com uma música, “Marechal da Alegria”.

Tonho: Bell é The BEST. É o melhor mesmo. E ele tem uma qualidade super legal. Tem mais de vinte anos que a gente se conhece e ele continua a mesma pessoa. O sucesso não transformou as suas idéias. E é um empresário maravilhoso, que mantêm a estrutura do Chiclete com Banana na música da Bahia, no trio elétrico. Não se pensa em trio elétrico hoje sem pensar em Chiclete com Banana.

Meu amigo, meu irmão e meu parceiro também. Fizemos “Menina me dá seu amor” que é uma paquera do artista com a fã. O artista também deseja, é um ser humano. Às vezes aparecem umas fãs... (risos). E fizemos também “Durvalino, meu rei” em homenagem ao Durval.

Lelynho.com.br: Afinal, O que significa “Deixe de milonga”?

Tonho: A milonga é a preguiça.
Quando fizemos essa música estávamos todos (eu, Bell e Durval) em Vitória da Conquista. Ele (Durval) tava encostadão, cheio de preguiça e todo agasalhado de rosa, por isso o “Se vista de pantera, se descubra meu rei” (risos).
E assim demos o título a ele: Durvalino, meu rei. Pensei em Durvalino e em meu rei. Ai ficou.

Lelynho.com.br: Como você organiza as músicas?

Tonho: Eu devo ter quase 400 músicas gravadas, quase todo dia nego me grava. Só esse ano fui gravado por Elaine, da Banda Planeta Axé, Ara Ketu, As Meninas, Daniela Mercury, Banda Eva, Harmonia do Samba. É muita gente, muita gente.

Lelynho.com.br: Você acompanha os sucessos das suas composições?

Tonho: Acompanho, hoje deixo o meu filho mais velho Alan, 21 anos, vendo algumas coisas.
Tem músicas que eu coloco como parceira “Jô Vieira”, minha mulher, que me ajuda muito na parte de edição. Ela dá uma olhada, toma conta, porque é muita música, tem que sempre vigiar, tem que reclamar no Ecad. “Ih, esse mês veio mal” (risos).

Eu vivo completamente de música. Dos direitos autorais e dos shows que faço com o Olodum e com a minha banda solo.

E agora eu tenho um projeto em desenvolvimento com o Windson Silva(manager do grupo Cheiro), meu empresário, um projeto chamado Canto Negro. Ai vai entrar agora o Tonho publicitário, o homem do Marketing ataca agora(risos). Eu descobri um filão no mercado musical em eventos corporativos. Shows em convenções.

E ao invés de apresentar apenas um show, apresentaremos uma banda afro, com capoeira, makulelê e puxada de rede. Eu quero trazer o show folclórico inteiro pra dentro do evento.

E nada de cantar a música do Olodum e colocar o nome do Canto Negro.

Porque a música do Olodum tem que ser cantada com o nome do Olodum e a do Ilê com o nome do Ilê.

O projeto é esse. Em primeira mão.

E Canto Negro porque vai entrar no repertório desde Olodum até Milton Nascimento, Gilberto Gil e Jackson do Pandeiro.

Lelynho.com.br: Suas canções têm muita informação histórica. Qual a importância disso?

Tonho: A minha missão é levar a mensagem da história.
A música é um veiculo que tem uma total liberdade, ela entra nos corações das pessoas, na vida das pessoas e porque não transmitir algo de valor, de história. A história é bastante rica. Somos miscigenados, tento sempre colocar um pouco de Portugal, um pouco de África e um pouco de amor.

De onde surgiu o nome “Matéria”?

Tonho: O nome surgiu na quarta série, a professora me perguntou o que significava a palavra “matéria” eu respondi brincando: “Matéria é aquela coisa que ocupa lugar no espaço” (risos). “Essa cadeira é uma matéria professora, essa sala é uma matéria professora”. Ai a classe virou uma zona e eu fiquei de castigo. Depois, quando eu entrei pra composição, acabei adotando o nome Matéria, pois o meu nome é Antônio Gomes Conceição e como não ficaria legal Antônio Conceição, eu coloquei Tonho, que é como meus amigos me chamam e assim ficou.

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