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Alexandre Peixe conta um pouco sua história, seu trabalho e suas influências musicais
Por: Herik Mourão

O Jovem cantor e compositor baiano Alexandre Peixe está começando a ver seu trabalho ser conhecido e divulgado pelo Brasil todo. Já respeitado na Bahia há muito tempo, Peixe foi gravado por todas as estrelas do Axé: Ivete, Daniela, Asa de Águia, Chiclete com Banana, Babado Novo, Ricardo Chaves, Netinho, Pimenta Nativa, Patchanka, É o Tchan, Cheiro de Amor e esse ano será também pelo Ara Ketu, única banda que ainda não tinha nenhuma música dele na discografia. Além desse talento criativo, ele também é cantor e viaja o Brasil com o projeto “Axé das Antigas”, que começou quando observou cantores de bares cantando músicas antigas e tendo receptividade e em rodas de violão com amigos, sempre pediam uma ou outra música do “fundo do baú”.

E nos palcos onde se apresenta com o “Axé das Antigas” é acompanhado pela Banda Os Pinaunas, nessas apresentações, Peixe mostra seu lado carismático e cativante, fundamental para um cantor de Axé.

Entre prêmios e troféus, as músicas preferidas do compositor são “Voa-Voa” e “Pára de Chorar”. A primeira em parceria com Beto Garrido foi eleita melhor música do Carnaval 2003 e a segunda também com Beto Garrido, mais Daniela Mercury e Nelson Motta nem teve lançamento de rádio e TV, pois era uma música de estúdio num trabalho ao vivo de Daniela, porém, é uma canção que faz muito sucesso entre os fãs de Daniela e é considerada uma das melhores faixas do álbum MTV ao vivo.

Nessa entrevista exclusiva, Peixe fala de sua relação com os grandes nomes do Axé, de como foi comissário do Nana para seguir o Chiclete e hoje ter 13 músicas gravadas pela banda.

Lelynho.com.br: Qual é a sua influência musical? Quem mais te influenciou?

Peixe: É difícil falar disso assim. Acho que todos de certa forma. O Asa foi uma banda que conseguiu fazer muito a junção do pop no carnaval baiano, com percussão; O Chiclete sempre foi uma banda que respeitou muito a questão do trio elétrico, sempre teve uma unidade musical muito em cima de trio. Se você for analisar bem, o Chiclete tem uma história ligada ao trio elétrico sempre, por isso que nos trios, nos blocos, eles têm essa legião de fãs pelo Brasil inteiro, há 20 anos ou mais. Acho que, de certa forma, Ivete e Daniela, são artistas que não gravam somente música baiana, gravam baladas, músicas com outras influências e isso também é bacana. E é por isso que eu digo que de algum jeito, cada um desses artistas passa a ser uma referência enquanto compositor, enquanto fã e tudo. E claro que a gente não vive numa ilha ali só no carnaval. A gente recebe influências de ouvir rádio, ver tv. Então eu acho que a gente acaba na hora da criação levando tudo isso em consideração. Na hora, a gente não sabe o que é que vem de influência pra ajudar a gente, mas de alguma forma isso vai somando.

Lelynho.com.br: O que está ouvindo atualmente? Vai buscar fora do Axé inspiração para escrever novas canções?

Peixe: Ultimamente, eu tenho resistido mais à questão da música americana, eu tô ouvindo muita coisa brasileira, muitos ritmos brasileiros, talvez pela questão de autor, porque quando você mexe com essa questão de autor acho que fica mais atento às intenções das letras e como eu não tenho um inglês que me permita entender exatamente o que a música quer dizer, cria um pouquinho essa barreira. Claro que eles são maravilhosos na hora de arranjar, na hora de produzir bons discos. Quando eu escuto um Djavan, um Ivan Lins, um Vercilo ou qualquer artista de música brasileira, eles têm sempre uma coisa a dizer. E acho que a gente que é criador é muito curioso pra essas idéias e isso acaba me atraindo mais.

Lelynho.com.br: Tem alguma música que você achou que perdeu uma grande idéia que tava fácil? Naquele estilo: “Como é que eu não pensei nisso antes?”.

Peixe: O que eu queria ter feito de música boa... Eu queria ter feito um monte, mas tem especificamente uma música de carnaval que é aquela música “sou um peixinho fora d’água sem você” do Patchanka e todo mundo perguntava “Peixe, aquela música é sua?”, e eu dizia “Não...”. Mas é engraçado, que sempre me perguntam. Mas músicas boas têm milhões, não dá nem pra citar. Quem não gostaria de fazer uma música que tá sempre sendo regravada e tá na história?

Lelynho.com.br: Você já foi gravado por muitos cantores e bandas, teve contato com todas as grandes estrelas dos trios elétricos. Qual deles que resultou em amizade?

Peixe: Grande parte da relação que eu tenho com eles é a relação de compositor. Tive contato um pouco maior com o Durval pela questão do Groove Studio, que eu tive gravando lá. Durval tem um estúdio muito bom em Salvador e acaba aproximando esse lado técnico, a gente de vez em quando ta lá. Ano passado eu tive um tempo lá na Caco de Telha (produtora de Ivete Sangalo), fazendo uns trabalhos também e logicamente a gente teve mais contato com Ivete. E como eles também tem uma vida muito louca, acaba sendo difícil ter contato. São pessoas com família e tal e quando eles estão aqui normalmente tem uma reserva pra ficar com filhos e coisa e tal.

Lelynho.com.br: Hoje tem a oportunidade de trabalhar com os grandes nomes da música baiana na composição das músicas e criação dos CD´s. Perde um pouco o brilho? Desmistifica a imagem de ídolo?

Peixe: Não, não sei se perde não porque é uma referência que sempre ficou, de folião mesmo, e a gente continua tendo a mesma admiração pelo trabalho, pelas histórias que esses artistas construíram. Agora, por estar com o trabalho, a gente acaba se acostumando com a idéia de estar conversando, de estar em contato. Mas como fã, eu continuo fã de todos esses, por que acho que me influenciaram, hoje eu tô começando esse trabalho e também já saí nos blocos deles todos, já saí com Durval, Chiclete e Ivete. E é engraçado assim, um dia eu estou lá embaixo, pulando, no outro dia eu tô dividindo uma situação de disco e tal, é uma situação boa, prazerosa.

Lelynho.com.br: Nesses 10 anos, desde o lançamento de “Nanaê”, você tentou várias faculdades de Medicida, Administração e está se formando em Direito e até já teve uma outra banda. Você tinha vontade de trabalhar em quê? Sempre teve vontade de compor...?

Peixe: Na verdade, é a experiência de buscar os caminhos. E na fase de composição não tinha vínculo com estrada. Quando você entra num trabalho de banda, é meio incompatível uma vida paralela em relação à outra atividade normal. E como eu vinha me dedicando mais à questão das composições, o trabalho de bastidor, de estúdio, é uma coisa que eu crio meus horários. Então nunca foi incompatível pra mim. Eu sempre tive vontade de terminar algum estudo, porque eu acho que a gente aprende, conhece pessoas. E acabou rolando isso paralelo mesmo, e música é isso, você começa a pegar uma coisa e pensa “ah não tem nada a ver comigo” e volta pra música. E aí penso “vou fazer aquilo pra ver se tem a ver”. E eu virei Bacharel em Direito até pela questão de direito autoral, as coisas do show business e acho que foi até por isso que o Direito me interessou. A gente tá sempre na frente de contratos, então tive a intenção de entrar nessa área e terminei. Acho que transitamos entre essas coisas o tempo todo em qualquer área. Mas nunca exerci e não aconselho ninguém a me contratar. (risos)

Lelynho.com.br: Por falar em contrato, você está estudando alguma proposta com gravadoras?

Peixe: Acabamos de gravar um disco lá em Salvador, dia 28 de julho. O mercado mudou muito, a gente sabe que nos dias de hoje a realidade de gravadora é bem diferente de anos atrás por causa da pirataria, dessas tecnologias digitais. Hoje, têm muitas formas de ser parceiro de gravadoras, via distribuição ou você sendo “produto” mesmo. E se esse caminho vier a acontecer agora, tem que ter uma cumplicidade da gravadora em relação ao trabalho, em querer dar visibilidade ao produto.

Não é só uma coisa “você faz parte da gravadora X” ou de uma multinacional famosa e tá lá no meio de artistas renomados e ficar na geladeira.

A gente até comentou do Luau Bahia (primeiro CD da carreira solo), que foi um acústico que fiz, e eu posso até dar seqüência nele pela EMI, que foi quem distribuiu o trabalho. E aí quando falamos em projetos, pode até aparecer uma seqüência dele via própria gravadora, ou ir para uma outra ou ser independente mesmo e poder colocar na loja um produto mais barato. Acho que o melhor caminho é quando a gente tem os mesmos interesses pelo produto, a mesma vontade.

Lelynho.com.br: Fale sobre a Baranga Pintada, o que foi aquela banda?

Peixe: Foi a minha primeira experiência, talvez muita gente nem saiba, foi em 98, fizemos até um disco pela Continental. Acho que foi legal ter feito, foi uma experiência inicial com disco, com banda, uma coisa muito amadora. Todos músicos muito novos... então valeu pela experiência. Depois que isso acabou em 99, fiquei mais envolvido com composição. As coisas caminharam pra gente dedicar mais tempo e foi aí que Beto Garrido apareceu como parceiro meu, ele foi tecladista dessa banda. E a gente conseguiu uma parceira legal.

Lelynho.com.br: Qual o seu papel na criação das músicas? Harmonia, melodia ou letra?

Peixe: Tem um lance muito de momento. Muitas vezes eu faço a melodia e o parceiro traz uma idéia de letra. Não tem muita regra não. Eu acho que o mais bacana é você ter um parceiro que tenha uma disciplina de trabalho, pra que a gente tenha uma produtividade maior.

Lelynho.com.br: Teve alguma música que alguém ignorou e que depois virou um grande sucesso?

Peixe: Não digo que a palavra seja “ignorar”, muitas vezes acho que a questão é esse timing mesmo. O cara tem muito tempo de fazer um disco e fica 6 meses lá matutando o repertório e nesse tempo você não sabe se o cara vai gravar. Aí vem um outro e diz logo de cara que vai gravar. Aconteceu isso ano passado com “Não Vou Chorar”. Inclusive “Me Chama de Amor”, que é a música atual do Babado, aconteceu por essa situação. Eu bantendo papo com a Claudinha ela me cobrou “cadê a minha música, cadê a música do Babado?”. Aí quando essa música ficou pronta eu quis entregar pra ela porque o Chiclete naquele momento já parecia que tinha fechado o disco, porque há dois meses antes de gravar já tinham separado algumas músicas minhas e de Beto e não fizeram mais contato com a gente. Quando o Babado ligou pra fazer o repertório, eu imaginei que o Chiclete já tivesse com o disco fechado, então automaticamente apresentei a música à Claudinha, só que demorou para ter esse retorno do Babado e Bell ligou “olha tão faltando mais umas duas músicas pra fechar o disco” e essa música apareceu e ele falou “olha, vou gravar”. E logo depois a Claudilha ligou “vou gravar aquela música”. “Pô Claudinha, Bell já fez, mas vou fazer uma outra pra você”. E aí fiz “Me chama de Amor”, e foi legal porque as duas músicas tocaram. As duas estão no meu disco e “Ta tudo bem”, que Ivete gravou também.

Lelynho.com.br: Tem planos para o carnaval 2006?

Peixe: Temos planos pra fazer na quinta-feira um projeto novo, que a marca é nova, um projeto que a gente vem desenvolvendo e que tem muitas chances de rolar. Não é uma coisa assinada, nem fechada, mas tá muito encaminhado.
Temos propostas de carnaval em outros lugares que a gente recebeu, mas estamos aguardando pra não deixar de estar em Salvador que é o maior carnaval que tem, é a vitrine. E tem a mídia, então a gente tá segurando. Tomara que pinte bastante coisa, porque a gente tem que estar no meio daquela bagunça toda.

Lelynho.com.br: E o pessoal que sempre pede músicas? Principalmente “Me liga” que o Asa gravou?

Peixe: A gente quer ser o mais atencioso possível com o público, mas é humanamente impossível, porque muitas vezes uma música que a pessoa pediu ali é um tipo de música que eu já toquei em outros lugares e pouquíssimas pessoas conhecem. Em uma festa pra 5 mil pessoas, só 10 conhecem a música. Então pra você e para o show não é legal você tocar aquela música. E aqueles 10 não entendem, infelizmente.

“Me Liga” é uma música que eu gosto pra caramba e gravei nesse disco, mas é uma música que o Asa não tocou, não foi uma música trabalhada. É uma música que o Asa toca no trio e de vez em quando. Então acho ótimo saber que as pessoas gostam, porque quando o disco sair, não é uma música que ficou cansada e já tem uma galera que gosta. E tem grande chance de ser uma música que tenha aceitação.

Lelynho.com.br: E é legal, mostra que tem o outro lado, que você não é exclusivo do Chiclete. E quem está para gravar suas composições?

Peixe: É, e não tem isso na verdade. Esse ano o Ara Ketu me gravou, duas músicas minhas e de Beto, o Jammil gravou, o Durval ta com duas músicas na pré-produção dele e com uma terceira entrando também porque esse ano eles vão fazer um DVD em janeiro, então eles vão ter bastante tempo pra definir repertório. O que eu acho que aconteceu com o Chiclete é que a gente vem tocando e tem virado sucesso, vamos dizer assim, você vai sendo associado a esse trabalho. Ainda bem agora que o Babado tá com uma música de trabalho, “Babado Novo”(a música) tocou também, “Ta tudo bem” de Ivete. Mas são momentos diferentes e músicas espaçadas. No caso do Chiclete, vem vindo numa seqüência “Nana Ê”, “Quero Chiclete”, “Voa-Voa”. Talvez a gente tenha achado mais o caminho do agrado de Bell, da vontade de Bell e também tem tido essa empatia com o público, essa coisa de identificação da música mais romântica que acho que tem funcionado bem e tem uma veia forte no trabalho dele.

Lelynho.com.br: Na sua opinião, quais artistas que são pilares do Axé-music merecem mais atenção?

Peixe: Uma surpresa grata demais esse ano foi o Luiz Caldas ter voltado, a gente meio que sem querer deu uma atiçada no repertório dele em relação ao público mais jovem e isso trouxe uma curiosidade para os empresários “Poxa, o repertório de Luiz Caldas tá agradando a galera nova”. As pessoas achavam que por ele ter um repertório de 20 anos, só quem conheceria isso é o pessoal que têm mais de 40 anos. Logo depois que eu comecei a fazer o Axé das Antigas, o Luiz voltou a trabalhar em Salvador e as outras pessoas viviam tocando as músicas dele em outros lugares e então foi legal, sem querer, eu dei uma contribuição, mas é porque Luiz é uma pessoa de referência mesmo, é um instrumentista virtuoso pra caramba, que toca todos os instrumentos e que tem, sei lá, mais de 10 discos gravados e não sei porque ele acabou saindo da grande mídia, mas é uma pessoa que sempre teve muito respeito dos músicos e dos artistas de Salvador, então é uma grata surpresa ele ter voltado forte.
E uma coisa que eu acho que é injusta mesmo e que deveria ser uma obrigação dos carnavais, não só em Salvador, mas em todos, como micaretas, era abrir o carnaval com o trio elétrico de Armandinho e os saudosos Dodô e Osmar, por serem os idealizadores do trio elétrico e pela história que eles fizeram. André Macedo, Haroldo Macedo, Armando, no carnaval eu não vejo e quando vejo tocam em horários que a mídia não tá lá pra mostrar, eu acho isso uma grande injustiça. A família criou o trio elétrico e por hoje ter uma dimensão tão capitalista, tão mega, deveria ser uma obrigação de todo o carnaval fora de época. A abertura deveriam ser eles, tocando músicas instrumentais, guitarra baiana, os clássicos mesmo. E todos os artistas deveriam exigir isso pra fazerem os carnavais, a presença de um trio de Armandinho e toda a história do Dodô e Osmar.

Claro que o Olodum e o Ilê têm um horário de mídia menor, mas ainda estão organizados; o Gandhi, que é um bloco imenso, cada ano que passa tá maior, mas Armandinho eu não vejo tocando. Nesse projeto mesmo(Axé das antigas), o André Macedo foi cantar com a gente umas três vezes, é uma pessoa maravilhosa, do bem. É uma coisa que eu sinto falta, uma preocupação maior com a história e dar um espaço maior pra eles.

Já que o folião não dá mais tanto importância para o que toca no rádio, eles não gravam mais, mas a Bahiatursa que é um órgão que fomenta o turismo, a Emtursa que faz a organização do carnaval, eles deveriam colocar isso como um patrimônio nosso, um patrimônio vivo, um patrimônio histórico. E com prazer, não fazendo um favor.

Lelynho.com.br: E os jovens? Além de Alexandre Peixe, em quem mais você apostaria na Axé-music.

Peixe: Vamos fazer com A Zorra agora, que é uma banda nova, com o Rapazolla que é uma banda nova. Eu fico feliz de ver esses trabalhos saírem e fazerem sucesso também porque eu acho importante pra música baiana existir essa turma fazendo uma renovação, porque os artistas hoje que têm mais de 20 anos de carreira, como Durval, inevitavelmente, existe um timing pra isso e é interessante a gente ter essa coisa transitando.

E fechando essa questão de banda nova, tomara que sempre surjam outras e que sempre sejam coisas legais e que de alguma forma acrescente alguma coisa, que tenham um trabalho com personalidade e isso soma todo o processo mesmo. É difícil falar de uma ou duas, senão a gente vai estar cometendo injustiça com tanta gente que a gente conhece e então é melhor ficar em cima do muro pra não ter problema.

Lelynho.com.br: Valeu Peixe! Muito sucesso pra você!

Peixe: Valeu! Muito obrigado pela atenção que vocês do site têm dado ao meu trabalho.

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