| Ramiro Musotto é branco e argentino e quando chegou ao Brasil desembarcou em São Paulo. Apesar desse perfil atípico, Ramiro é importante percussionista e produtor na cena baiana. Ironicamente, ele nasceu em Bahia Blanca na Argentina e foi morar no Pelourinho no começo dos anos 80, quando lá era a Bahia Negra e sem o turismo de hoje. Da sua pesquisa de ritmos ele escreveu o mais completo método de Berimbau.
Morando em Salvador, Ramiro deu, dá e continuará dando sua contribuição para a música mundial, inclusive a nossa incompreendida axé-music. Sua genialidade pode ser conferida mais facilmente no seu primeiro trabalho solo, Sudaka, em que junta suas referências de percussão com sons eletrônicos - uma viagem maravilhosa e sucesso de crítica; ou no DVD Lenine In Cité, em que Ramiro coloca cor e intensidade na música de Lenine.
O seu currículo é extenso, já trabalhou com artistas do gabarito de: Skank, Marisa Monte, Daniela Mercury, Os Paralamas do Sucesso, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lulu Santos, Zeca Baleiro, Adriana Calcanhotto, Titãs, Fernanda Abreu, Sergio Mendes, Zélia Duncan, Gal Costa, Lenine, Moraes Moreira, Martinho da Vila, Sérgio Dias e Chico César.
Nessa entrevista, Ramiro conta um pouco dos seus 22 carnavais na Bahia, rasga elogios para os talentosos e reclama espaço para os blocos não comerciais. Confira na entrevista abaixo a personalidade de um artista com muito talento e identificação com a música baiana.
Lelynho.com.br: Quando começou na música? Quando começou deixar de ser ouvinte para tocar e fazer música?
Ramiro: Comecei aos 16 anos na minha cidade natal, Bahia Blanca. Aos 16 anos comecei tocando na Orquestra Sinfônica da cidade, e paralelamente tocava bateria em grupos de rock e percussão em grupos de musica latino-americana. Era fascinado desde criança por musica brasileira.
Lelynho.com.br: Como você avalia cena musical baiana? Houve grandes mudanças e descobertas depois do Samba-Reggae?
Ramiro: Eu tive a sorte de vivenciar as grandes mudanças do carnaval, desde 1984, quando cheguei, minha primeira banda foi a Salamandra, do bloco Camaleão. Tocavam comigo: Renato Fechine, Toinho Batera (bateria de Ivete Sangalo), Luizinho Assis e Carlinhos Brown. Eu tinha acabado de fazer 20 anos e Brown 21. Aprendi muito com todos eles. Eu freqüentava os ensaios do Ilê, do Comanches e do Olodum, que aconteciam no Pelo, onde eu morava. Também vi o Male, o Ara ketu, os Apaches, o Muzenza, os Amantes do Reggae, eu era doido pelo Samba Reggae, que ainda não tinha esse nome, era o samba de bloco afro.
Era uma batida só pra todo mundo. Até que o Olodum começou a inovar com Mestre Lascada. Depois veio o Mestre Neguinho do Samba e seu contramestre Jackson, fizeram uma revolução rítmica, percutindo o repique com duas baquetas, como no Candomblé de ketu.
Tudo mudou. Eu seguia os passos das mudanças de perto, morava no Pelourinho.
Quando comecei a gravar na WR, ainda não se gravava samba-reggae. Era afoxé, galope e frevo. Mais tarde(85) veio o fricote, as lambadas, as misturas começaram a aparecer. O samba-reggae chegou em 1986, 87, foi incrível! Ninguém na WR sabia o que era aquilo, aquilo tinha passado anos no gueto, e o carnaval das elites baianas, os blocos de trio, nem sabiam que existia aquilo.
Quando começamos a gravar samba-reggae, eu já sabia tudo, conhecia as batidas as afinações, os truques, as chamadas e as saídas, pois tinha vivido aquilo no Pelourinho com muita fissura de aprender, era por prazer mesmo, não sabia que um dia eu aproveitaria isso pra gravar, pra trabalhar.
Lelynho.com.br: Qual a importância da percussão para a axé-music?
Ramiro: No começo não tanto, foi a partir do Olodum e do surgimento da Timbalada que tudo mudou. Em 1986, as bandas da Bahia tocaram com um percussionista só. Depois do samba-reggae e Timbalada, temos agora bandas com até seis percussionistas.
Lelynho.com.br: Sua pesquisa no candomblé ficou só na questão musical ou você envolveu-se e freqüenta terreiros até hoje?
É uma pesquisa musical iniciada quando cheguei aqui. Eu freqüento terreiros e tenho amigos da religião dos orixás. Toquei diversas vezes em terreiros, respeito muito. Mas meus amigos sabem que eu sou agnóstico de criação e pra mim é difícil seguir os preceitos de qualquer religião. Se tivesse que escolher uma religião eu escolheria o candomblé de ketu. Sinto-me bem, acho as lendas e os mitos dos orixás muito importantes, porque eles nos mostram um mundo sem maniqueísmo, sem a divisão entre o bem e o mal tão presente nas religiões monoteístas do meio oriente, e também, porque é uma religião voltada pra natureza, nos faz despertar uma consciência de captar o universo e a natureza, que é fantástica.
Lelynho.com.br: É possível afirmar que o Brasil é o berço dos mais importante percussionistas do mundo?
Ramiro: Brasil, Cuba, Haiti, no Caribe em geral e na África subsaariana, são os grandes exportadores de percussionistas, mas o Brasil tem a percussão mais criativa, isso não tem dúvida. A percussão, mais rica em timbres, cores e diferentes ritmos pode ser a brasileira, tanto pela sua grandeza geográfica como pela característica única de sua musica popular pós-bossa nova. É por isso que os grandes percussionistas dos EUA são brasileiros.
Lelynho.com.br: Qual banda de axé hoje possui a percussão acima da média, com um trabalho realmente especial.
Ramiro: Sem dúvida Psirico. É fantástico!
Lelynho.com.br: A percussão nas bandas é pejorativamente chamada de "cozinha", na sua opinião, é um desprezo para esses músicos ou isso é indiferente pra você? Gostaria de fazer como Brown e trazer a percussão para o centro do palco?
Ramiro: Eu já faço isso no meu show. A percussão fica na frente. Na música cubana a percussão fica na frente há muito tempo também.
Lelynho.com.br: Ser músico e artista no Brasil é muito difícil, ainda mais com arte não comercial. Que tipo de trabalho paga as contas do Ramiro?
Ramiro: Meu próprio show, produzir artisticamente cds de outros artistas e fazer workshops. Antes era tocar com bandas famosas, agora não faço mais isso por causa do meu próprio trabalho, da incompatibilidade de agendas. Então produzir me deixa mais tempo e posso me organizar melhor. Fazer workshops no exterior também tem sido ótimo. Este ano já fiz workshops de samba-reggae, Berimbau e Análises Rítmica na Suíça(Zurich), Suécia(Estocolmo) e França (Grenoble e Langogne). Os de samba-reggae tem até 40 pessoas. Final de setembro tocarei em Barcelona e Madri com minha banda e depois vou pra Finlândia fazer workshops durante uma semana. Um novo workshop que farei será gravação de samba no estúdio. Iremos pro estúdio e botarei todos os alunos pra gravar e passarei meus truques de estúdio, legal né?
Lelynho.com.br: Se não tiver que tocar no carnaval de Salvador, tem algum bloco que gostaria de sair?
Ramiro: Não gosto de sair em bloco. Meu jeito de curtir o carnaval é ir atrás das bandas de percussão e ficar analisando os caras, tentando entender tudo que acontece ritmicamente e comparando, tentando memorizar. Para mim o carnaval (e o são João também) é aula de rimo e percussão. Se não tiver o que aprender, eu fico entediado.
Lelynho.com.br: Quais seus planos para trabalhos próprios e produção de artistas do Axé-music?
Ramiro: Estou produzindo o cd da banda Scambo. Estou terminando meu novo cd. Vou produzir o DVD da Daniela, que será gravado em novembro no Rio. Tenho vários projetos. Continuar com a orquestra de berimbaus afinados, minha banda de percussão, chamada Afrosudaka e que acompanhou a Daniela no carnaval passado, etc...
Lelynho.com.br: Conte sua relação com o trio elétrico. Tem alguma afinidade em tocar no trio ou gostaria de trazer mais recursos multimídias para o caminhão/palco baiano.
Ramiro: Gosto muito de trio. Mesmo achando que deveria ter uma divisão no carnaval entre dias/ruas de trio e de blocos afros e de índios e de afoxés. O trio ao mesmo tempo que fez do carnaval baiano um evento único, matou o carnaval de rua, de percussão em Salvador. 90% dos estrangeiros que passam o carnaval aqui não gostam da falta de percussão nas ruas e da falta de blocos. O carnaval da Bahia perdeu sua inocência e virou um grande fenômeno de marketing e de artistas querendo se promover e ganhar espaço. É mais um festival de música comercial do que uma manifestação cultural e é isso é perigoso. Corre o risco de ficar chato, se todas as bandas tocam as mesmas músicas, e todas (quase) tem a mesma estética, que é indubitavelmente cafona e frívola. O carnaval pode ser mais do que isso, e já foi e ainda é um pouco. Não é ser saudosista, mas o carnaval de hoje em dia não pode ser só uma festa de elites dentro de cordões e o povo todo espremido na rua. E olha, que eu sou fã de trio de carnaval da Bahia. Mas acho que a TV e as gravadoras fizeram estragos no carnaval baiano. A cultura negra esta sumindo do carnaval baiano. Não tem mais blocos de percussão. O Olodum hoje só sai com bateria na sexta nos outros dias é banda trio. Vários blocos afros saem com bateria em cima do trio. Isso é uma TRAGÉDIA! Porque em longo prazo significa o desaparecimento dos blocos afros. E para o mercado exterior, para o mundo todo, os blocos afros são muito mais interessantes que os blocos de trio, sejamos sinceros.
Conheço vários estrangeiros que preferem o carnaval de Olinda e Recife por causa disto. Eles querem ver percussão, fantasias, coisas da terra, folclore. Não tem mais isto no carnaval da Bahia infelizmente. Eu acho que tinha que ter um dia que na Avenida Sete fosse sem trios. Não adianta botar bandinhas de frevo no Pelourinho. Bandinhas de frevo não representam a música de Salvador. Tinha que ter um dia no centro da cidade só pra afoxés, blocos afros, blocos de índio e blocos de percussão. Toco em trios há 22 anos e cansei de ver trios, geralmente o trio que eu estou tocando acabar com um afoxé ou um bloco afro que passa a 500 metros do trio. Não tem como competir, você não acha? É a velha história cantada na musica “Eu sou Negão”, do meu amigo Gerônimo e que eu tive o prazer de fazer a bateria eletrônica.
Lelynho.com.br: Você se considera um discípulo de Brown e Neguinho? Explique para os leigos a grandiosidade da obra desses dois baianos.
Ramiro: As duas figuras mais importantes da percussão da Bahia.
Neguinho, mestre de Bateria do Olodum na época que Olodum fez as mudanças rítmicas que modificaram a cena musical da Bahia e até do Brasil. Brown, desde a Timbalada comandou uma revolução rítmica e comportamental. A percussão na Bahia virou coisa séria. Não era assim antes de Brown. Antes de Brown éramos todos rítmistas, todo mundo sabe disso. Conheci bem os dois, Convivi com os dois. Fiquei horas vendo os dois, analisando os dois.
Lelynho.com.br: Você concorda que o Asa de Águia foi a banda que melhor mesclou o Rock/Pop com a percussão baiana? Conhece Durval pessoalmente?
Ramiro: Durval é um velho conhecido, desde quando ele tocava no PINEL(primeira banda de Durval com Ricardo Chaves).
Ele sempre manifesta o desejo de eu produzir algum álbum deles, ainda não rolou, espero que role em breve.
Gosto da irreverência rockera do seu axé, e gosto do humor que tem sua música. Afinal é música de carnaval, né gente? Não é pra ficar muito sério, se achando que é artista de bossa nova né?
E eu acho que fazer música de carnaval pode ser muito mais difícil que fazer música "séria". Eu respeito muito uma pessoa que sabe fazer um hit de carnaval. É uma arte muito difícil fazer músicas de carnaval.
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