|
Jauperi
e Pierre Onassis, esses dois gigantes da música baiana estão
desde o ano passado juntos num projeto agora chamado “Vixi
Mainha”. Eles foram considerados a revelação
desse verão e do Carnaval 2006, mas fazem sucesso desde os
tempos em que eram do Olodum. São muitos hits compostos por
eles, músicas que estão no repertório e álbuns
de Daniela Mercury, Chiclete com Banana, Davi Moraes, Cheiro de
Amor, Babado Novo e muitos outros. Em um bate papo pra lá
de descontraído, esses dois “garotos” simpáticos
falam sobre suas obras, sobre o sucesso e mostram suas personalidades
fortes e fascinantes.
Lelynho.com.br:
Como desenvolveu seu lado compositor?
Pierre:
Eu sentia essa coisa da música em mim, né? De garoto,
o meu pai me colocou pra ouvir Ray Charles, João Bosco, Emilio
Santiago, então essa coisa da música sempre teve em
mim. E composição teve inicio no Olodum, de sentir
o povo, talvez então aí a explicação
das minhas canções manifestarem a alegria ao povo.
A “verdade” muito próxima ao que o povo traduz.
O povo normalmente presencia. Os lugares que eu freqüento,
os lugares que eu fui, as viagens que eu fiz como Olodum, enfim,
tudo isso sintetiza ...
Rosa, por exemplo, é uma das mais bonitas canções
que eu fiz na minha vida. Eu sinto até hoje que é
uma música que reflete carinho. As pessoas se emocionam e
eu só fui verdadeiro na canção. Eu canto muito
com o coração e eu tento expressar o meu posicionamento.
O meu bem estar. E eu quase sempre tô feliz. É difícil
me ver triste. Então acho que as minhas canções
“Vai sacudir, vai abalar”, do Cheiro de amor, “Festa
na cidade”, do Ara Ketu, a que Daniela gravou agora “Levada
Brasileira” (Capoeira din din din din din don), “Amassadinho”,
do Cheiro também. Enfim, todas essas músicas, ainda
que tenham romantismo, elas traduzem alegria. Eu consegui fazer
isso.
Lelynho.com.br:
Rosa é praticamente um hino da Bahia, pois muitos artistas
identificam-se com essa canção.
Muitos gravaram, outros costumam cantar em shows. Sempre está
na boca de alguma estrela do axé, como Daniela Mercury, Babado
Novo, Cheiro de amor, Ivete Sangalo, o próprio Olodum e outros
vários artistas. De onde veio a inspiração
pra essa música?
Pierre: Eu não consigo explicar não.
Como te falei: Durmo feliz, acordo feliz com todos os problemas,
a partir disso as minhas musicas “fluem”. Tenho uma
relação próxima com minha família, minha
mãe, meu pai, meus filhos, minha mulher e isso tudo estabelece
um determinado equilíbrio pra eu continuar fazendo canções
bonitas. E amo a vida, amo o que faço, adoro cantar e compor.
A partir disso, eu tenho certeza que vou fazer outras canções
que vocês vão cantar muito.
Lelynho.com.br:
E esse projeto Afrodisíaco, agora Vixi Mainha. É algo
sazional? Ou tem muitos verões pela frente?
Pierre:
A gente não quer que seja sazonal, não queremos que
dure um verão, a gente quer que seja verdadeiro.
JAUPERI.
Lelynho.com.br:
Jau, Você é o compositor de uma canção
maravilhosa, a preferida de muita gente e um marco na música
baiana. “Canto ao pescador” é maravilhosa.
(interrompe)
Jauperi:
É uma homenagam ao Dorival Caymi
Lelynho.com.br:
E ele sabe disso? Já se manifestou?
Jauperi:
Ele sabe, mas diante de mim nunca se manifestou, mas tenho certeza
que ele gostou.
É um compositor, um homem sensível. Fala da Bahia
de um jeito interessante. Tem uma poesia tropical e com cheiro de
mar, que ele gosta. Com certeza ele gostou.
Lelynho.com.br:
Quando você saiu do Olodum e partiu para carreira solo, você
tinha um baixista. Você imaginava que ele era um “hit
maker” (compositor de sucessos)? Você imaginava que
ele faria muito sucesso?
Jauperi:
AH! Manno Góes(Jammil). Rapaz, quando eu conheci Manno Góes,
ele não era baixista (risos). Estávamos na rua, tínhamos
amigos em comum e eu tava montando a banda e aí o Manno falou
que tocava baixo. Montamos a banda, ele comprou o baixo, fomos pro
estúdio e chegando lá, ele não sabia tocar
baixo.
Detalhe: no processo de ensaio que ele começou a tocar baixo.
Na verdade, ele começou a tocar baixo comigo. Então,
eu não tinha um baixista. E a gente começou a compor
algumas coisas, depois ele seguiu o curso natural das coisas, o
processo evolutivo da condição humana.
Bom compositor, bom artista e conseguiu montar um produto bom. Um
produto saudável.
Bom músico, bom compositor, mas acho que o maior talento
dele é ser empresário.
Eles
(Jammil) estão crescendo o Brasil inteiro.
A gente tá rodando o Brasil e toda cidade que eu chego, eu
tenho a preocupação de perguntar quais as bandas e
artistas da Bahia que estão tocando bem. Só pra ter
idéia mesmo. E Jammil em quase todo lugar tá bem.
Igual Babado Novo também.
Coincidentemente,
esses dois são produtos de uma mesma empresa. Então
você sempre se pergunta: será ou será? Será
que é um atributo musical e cultural? Ou será que
é uma relação do compositor com sua composição?
A relação do artista com sua arte? Ou será
que é a relação do business mesmo, da empresa
que você trabalha? Ela consegue te colocar no lugar certo.
Que esses dois produtos que estão forte no Brasil inteiro,
aliás três, porque Vixi Mainha está forte também,
tá chegando. São da mesma empresa. Você vê
que o empresário tem papel fundamental nessa coisa de sucesso
numa banda. É a Pequena Notável, Carreira solo e o
grupo Tchan. São essas três produtoras.
É
uma relação da arte com ...(pensa) Estar na produtora
certa com os produtores certos.
Lelynho.com.br:
O que te motivou sair do Olodum?
Jauperi:
O que eu desejo agora o que vou fazer amanhã, eu faço
hoje o que eu desejei fazer ontem. O projeto que eu tô fazendo
hoje, eu planejei ontem. Eu quero sempre o amanhã. Eu preciso
do amanhã. O presente é importante, tudo é
importante. Mas eu não me sinto agora pleno. Quero fazer
mais projetos, mais Oloduns, mais Vixi Mainhas, mais Jaus, eu quero
dar mais, mais tudo. Enquanto eu estiver escrevendo e cantando,
eu quero fazer um monte de coisas. É Raul Seixas, metamorfose
ambulante o tempo inteiro. Eu preciso disso.
E a
música, a arte precisa disso, pô. No momento que você
se encontra num projeto que te dê sustentação
financeira, toca no rádio e te dá visibilidade nacional.
Ai se você se acomoda, você perde a arte. Ai vira só
negócio, né?
Achei
a fórmula e vou ficar batendo em cima dela a vida inteira
é chato. O bom da arte é você “Será
que é isso? Ou não. Será que o que eu to fazendo
aqui as pessoas vão aceitar?”. Se vai virar um sucesso,
é uma outra coisa. O bom é o desafio.
Lelynho.com.br:
E você é aquele cara que precisa do sucesso? Precisa
dos aplausos?
Jauperi:
Eu faço sucesso lá em casa. Minha mãe
me adora, minha mulher, meus filhos. Meu cachorro me ama. Me basta.
Eu tô feliz! Se eu conseguir levar as idéias que eu
tenho e que boto nas minhas canções pras pessoas e
se eu conseguir fazer as pessoas me entenderem, e assimilarem o
meu trabalho, melhor ainda. Porque quanto maior o número
de pessoas você alcança com sua arte, naturalmente,
maior o numero de pessoas que você se relaciona e eu gosto
de me relacionar com pessoas. Então eu preciso que minha
música chegue em um monte de gente, para eu poder me relacionar
com elas. Mas isso não é sucesso. Isso é diferente,
mas isso traz o sucesso. Mas pra mim o mais importante é
a relação, o resto é conseqüência.
Lelynho.com.br: Na sua opinião, qual o Samba-reggae
mais lindo?
Jauperi:
Lembra que disse que o que faço hoje, planejei ontem? Então,
o mais bonito é o que eu vou fazer. (risos)
Mas eu vou falar de um aqui que eu amo, mas eu vou ser tendencioso.
(risos)
É uma música que fala o seguinte:
(Cantarola)
Por essa nega
Eu ponho roupa nova
Uso óculos escuros
Desço do muro
Ela sabe me fazer feliz
Nega!
Óculos escuros
na parede do meu sonho
Ela pintou alegria
Arrumou tudo em mim
Café com pão é bom
A brasileira é brasileira á brasileira
Vixi
mainha, ó neguinha
Tudo é tão bom
Io Iô mainha, ó neguinha
Tudo é tempo.
Acho
essa música fantástica! Um divisor de águas
da música baiana.
Café com pão, o título já é simples,
Café com Pão.
Lelynho.com.br: Você acredita que o samba-reggae
foi a grande invenção da música brasileira
nos últimos 20 anos?
Jauperi:
Eu acho que a música de percussão da Bahia coloniza
o mundo, no bom sentido.
Chega nos lugares com uma força impressionante. Qualquer
canto, canto não, porque o mundo é redondo e não
tem canto. Qualquer lugar do mundo que você vá, a música
baiana chega como música baiana. É música do
mundo. E o samba-reggae talvez seja a vertente mais forte da música
baiana. Logo, o samba-reggae é uma música universal,
coloniza o mundo. Eu adoro. Adoro o Olodum, a Timbalada, amo Gilberto
Gil, adoro Brown, Raul Seixas, Dorival Caymi, Jorge Amado, eu amo
os baianos.
Lelynho.com.br:
Por ter criado a batida do Samba-reggae no Olodum, você considera
Neguinho do Samba um gênio?
Jauperi:
Neguinho do Samba é um bom músico, não acredito
em gênio não. Na música você pode abrir
sua cabeça num determinado tempo da sua vida e ter interconectividade.
Isso abre várias portas e você consegue ter um processo
de criação maior do que as pessoas que não
tem esse tipo de relação.
A genialidade é chato. Acho um bom músico e uma pessoa
interessante. Acho Brown foda.
Gênio não, acho Brown foda.
|